MINHA BAILARINA

Elciane de Lima Paulino

Dançando bonito

Na ponta do pé

Roda a bailarina

fazendo balé.

O disco soltando

A música no ar

E a bailarina

Feliz a bailar

Vem rodopiando

Nesta direção

Abrindo os braços

No encontro das mãos

E vamos no passo

De uma linda dança

Entrando no ritmo

Da linda criança

Segura o varal

Pede para ver

Dobrando os  joelhos

Fazendo um plié

Sustenta a perna

Com muita energia

O ar fica leve

Nessa melodia

Os pés se encontram

No fim do compasso

E os corações voam

Num lindo abraço.

Tudo se transforma… Tudo!

Elciane L. Paulino

Qual a emoção… do cientista diante da descoberta, do contemplado de um bilhete de mega prêmio, do paciente diante da cura? Penso que, se não experimentei tal emoção, vivi algo superior – o rosto virou leito de rio e os olhos confundiram-se com estrelas.

“Culpa” de um garoto da escola, colecionador de desesperanças e advertências. Morava com o pai, desde que a mãe o abandonara no desmame dos três dias de nascido. Cresceu arredio sem o calor materno. O pai, de tanto tentar ser mãe, viu-se impotente sendo pai.

A incerteza de um coração indomável movia frustradas experiências docentes. Certa vez, aprontou mais uma de suas peripécias. Cansada de insucessos, superei os limites de minha autoridade e prometi-lhe: “Basta! Você será transferido! Se não conseguimos contribuir com o seu sucesso, outra escola o fará!” O menino parecia estar no “Congresso Internacional do Medo”, seus olhos agora brilhavam… de desamparo… de medo, e um pedido de perdão irradiou o dia. Ouvidos atentos aos olhos, quebrei a promessa e dei-lhe mais uma chance.

Quase que imperceptivelmente, foi mostrando interesse pelas aulas. Para a surpresa da classe, eu disse, um dia: “Além desse diário de advertências, guardo comigo um caderno de elogios, o qual recebeu hoje pela primeira vez, em dois anos, o nome de Carlito”.

Aparentemente constrangido, o menino concretizou num sorriso a esperança das “sementinhas do vir-a-ser”, e, em vez de palavras descabidas, gritou internamente: “Ela é a melhor pessoa do mundo” – de tão altas, o coração transbordou, e todos ficaram sabendo que na natureza tudo se transforma. O prêmio da descoberta do novo superou a cura de uma visão estereotipada e distorcida das possibilidades de transformação de tudo.

Homenagem às Marias Professoras

img-20191003-wa0034                                                                                                            Elciane de Lima Paulino

Mora aqui em nossa rua

A Professora Maria

Não se chama assim por graça

Nem surgiu assim de pia

Mas se interessa saber

Vou levar a conhecer

Através da poesia.

É que aqui nesse Nordeste

Já é bem peculiar

Desde que se use saia

Por Maria se chamar

Tanto faz religião

Com ou sem transformação

É a sina do lugar

Ah, Maria de quem falo

Cabe um ponto destacar

Se um dia foi com as outras

Hoje resolveu mudar

Porque sua consciência

Saboreia a sapiência

Do povo do seu lugar.

Quando ela era moça

Seu pai sempre lhe dizia

Minha filha, estude muito

Pra não sofrer, Maria!

E um dia se formou

Em algo que não pensou

Que fosse fazer um dia

Nos seus sonhos desvairados

Almejou a medicina

Mas um dia descobriu

Que era sonho de menina

Já que não podia ver

Pouco sangue escorrer

De uma injeção tão fina

Houve o tempo em que Maria

Triste se arrependeu

De não escutar seu pai

Quando conselho lhe deu

Para não namorar cedo

Muito menos em segredo

Isso não a convenceu.

Ah Maria, Maria!

Veja o que aconteceu

O seu pai então decide

Mudar todo rumo seu

Estudar em outra escola

Ser “ao menos Professora”

Foi o que lhe prometeu

E ainda profetizou

Seu destino de mulher

Nem sequer a consultou

Para saber o que quer

Vai pilotar um fogão

Filhos no braço e no chão

“Ou um futuro qualquer”.

Maria se adequou

Ao ramo do magistério

Estudou assiduamente

Esse lindo ministério

E foi na Literatura

Que escolheu a aventura

De levar palavra a sério.

Por ironia do destino

Quando Maria se formou

Foi procurar um emprego

E o mercado negou

Disse-lhe sem complacência

Que o perfil da exigência

Ela não apresentou

Ela, então, resolveu

Dizer tudo o que sabia

De Piaget a Vygotsky

Que aprendeu na Academia

O emprego lhe foi dado

E deu conta do recado

E mostrou para que vinha.

Começou ganhando pouco

Mas não fazia questão

Pois o que queria mesmo

Era dar demonstração

E foi muito perspicaz

Mostrou que era capaz

De ensinar educação.

Depois foi fazer concurso

Pra tentar mudar de vida

O segundo obstáculo

Dessa sua grande lida

E de tanto ela tentar

Pôde até comemorar

Uma vitória surgida

Eis que Maria consegue

O seu primeiro lugar

Foi difícil, reconhece

Mas merecia ficar

Afinal ela dormia

Quando amanhecia o dia

Pra seu sonho conquistar.

O prefeito então lhe disse

– Olhe: vaga aqui não há

– Como assim, Sr. Prefeito?

Há no edital, aqui está!

– Pois já temos Professora

Uma mulher batalhadora

Não tenho por que tirar

Mas a sorte de Maria

Foi um dia se casar

E constar no sobrenome

Referência elementar

Com um rapaz renomado

Um partido bem dotado

De cultura popular.

Com a história do nome

Que herdou do casamento

O Prefeito perguntou

Se era esposa do Sarmento

Que um dia o ajudou

Quando ele precisou

Para entrar no Parlamento

Ela disse então: “Prefeito,

Com ele não sou casada

Dê-me logo meu emprego

Que não desisto por nada

Tanto tempo que tentei

Tantas horas que gastei

Para ser ludibriada?”

O prefeito lhe prometeu

Deixou dia e hora marcada

Quem levasse em sua casa

Prometida papelada

Recebeu então Maria

Aquela oferta do dia

Que era tanto sonhada.

Finalmente conseguiu

Maria foi nomeada

Foi o sonho mais rico

De sua linda jornada

Lançou muitos desenganos

Para cumprir os seus planos

Nessa vida aperreada.

Pensou por hora nos filhos

Que seu pai profetizou

Veio lindo o primeiro

E o segundo não tardou

Eram filhos tão amáveis

E momentos agradáveis

Que o terceiro lhe chegou.

A família foi crescendo

Dinheiro quase faltava

Ela fez outro concurso

Pra ver se complementava

O sustento da família

E sua gratidão de filha

Nos versos ela levava.

Casa, filhos e trabalho

A vida ficou difícil

Mas por se chamar Maria

Conseguiu o impossível

Dedicou-se ao estudo

E um Mestrado que era tudo

Conquistou, tornou possível.

Todo o dia de Maria

É do plano ao fazer

Pra levar o seu aluno

à luta pelo saber

lápis, caderno na mão

paz e amor no coração

Por um novo amanhecer.

Ela sabe que é capaz

De cumprir sua missão

De ensinar a sua língua

Para os filhos da Nação

E como é professora

Sonha a vida promissora

Do seu sublime Torrão.

Pretinha

Elciane de Lima Paulino

Pela manhã

Um raio de sol

Entra no quarto

Pela janela

Para ver a doçura

De uma pretinha

Ao se levantar:

Esfrega os olhinhos

E vê no espelho

Outra pretinha

Mexendo o cabelo

E ela contempla

Tão bela e frondosa

Franzindo a testa

Faz pose nos braços

E se surpreende:

– Mãe, eu sou uma árvore?!

E a seta de luz

Incide em seu rosto

E a mãe da menina

Sorri encantada:

– Plantinha tão rara

Árvore de gavinhas

De tão preciosa

O sol vem brincar

Lançando seu raio

Sobre este espelho

Inventa um pretexto

para te beijar

e sai de fininho

dizendo baixinho:

“Eu faço de conta

Que neste jardim

Há duas pretinhas

Chamando por mim”.

Fábula da Lavadeira

Elciane de Lima Paulino

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Créditos da imagem: Ivan Paulino

Certa manhã, à beira do rio, uma andorinha pousou inquieta, convalescente e ensimesmada na frente da lavandeira, que realizava alegremente sua última lavagem de roupa. Aquela vinha esbravejando aos quatro cantos do mundo até encontrar-se naquele estado. Não foi através do barulho das águas que a lavandeira se fez entendê-la,  a própria viajante alada, com muito esforço, deu-lhe o discernimento.

– “Uma andorinha só não faz verão”? Perguntou-lhe ofegante, achando que a amiga poderia ajudá-la.

– É o que todos dizem quando se sentem péssimos, não é verdade?

– Errado. Eu não me sinto bem trabalhando sozinha, no entanto, faço a minha parte porque a minha natureza me fez disposta a trabalhar durante todas as estações sabendo que só me realizaria quando fizesse verão.

– O que esperas de mim, D. Andorinha?

– Penso que a solidão também tem o seu lado bom. Pois veja bem, minha senhora, me mandaram periquitos e papagaios para ajudar no meu serviço…

– E daí?

– E daí que se formaram dois grandes grupos. O grupo dos papagaios comandava muito bem, tinha um ótimo discurso, era instigante por natureza. Os periquitos, por sua vez, cantarolavam como ninguém, seus feitos eram indispensáveis, além do mais, tranquilos e sociáveis.

– Por que estás tão abalada?

– Pobre de ti, senhora, não percebes que a natureza foi falha, uma vez que nenhum deles conseguiu enxergar a importância do meu trabalho individual? Nem mesmo enxergaram o que, sozinha, pude oferecer. Eu nunca me senti tão só, estando em companhia alheia!

A lavandeira percebeu que a andorinha tinha muita roupa suja para lavar, mas preferia carregar o peso daquela trouxa sozinha em vez de aceitar ajuda. Por isso, resolveu dizer-lhe as palavras sábias do dia:

– O infinito é distante demais para que carregues o teu pesar; sacode essa sujeira e voa livre no infinito azul. Reconhece-te a ti mesma, pois a ingratidão nada importará, quando passares a pensar assim, passarinho.

A andorinha não disse mais uma palavra. Olhou para o infinito de sua consciência individual, para o âmago do reconhecimento de si e voou. A lavandeira, vendo-a agora voar abertamente sobre aquele céu fulgurante, percebeu que no final tudo termina bem.

Moral: A alma se torna leve ao desprender-se do peso do julgamento alheio e, no final, tudo termina bem.