Qual a emoção… do cientista diante da descoberta, do contemplado de um bilhete de mega prêmio, do paciente diante da cura? Penso que, se não experimentei tal emoção, vivi algo superior – o rosto virou leito de rio e os olhos confundiram-se com estrelas.
“Culpa” de um garoto da escola, colecionador de desesperanças e advertências. Morava com o pai, desde que a mãe o abandonara no desmame dos três dias de nascido. Cresceu arredio sem o calor materno. O pai, de tanto tentar ser mãe, viu-se impotente sendo pai.
A incerteza de um coração indomável movia frustradas experiências docentes. Certa vez, aprontou mais uma de suas peripécias. Cansada de insucessos, superei os limites de minha autoridade e prometi-lhe: “Basta! Você será transferido! Se não conseguimos contribuir com o seu sucesso, outra escola o fará!” O menino parecia estar no “Congresso Internacional do Medo”, seus olhos agora brilhavam… de desamparo… de medo, e um pedido de perdão irradiou o dia. Ouvidos atentos aos olhos, quebrei a promessa e dei-lhe mais uma chance.
Quase que imperceptivelmente, foi mostrando interesse pelas aulas. Para a surpresa da classe, eu disse, um dia: “Além desse diário de advertências, guardo comigo um caderno de elogios, o qual recebeu hoje pela primeira vez, em dois anos, o nome de Carlito”.
Aparentemente constrangido, o menino concretizou num sorriso a esperança das “sementinhas do vir-a-ser”, e, em vez de palavras descabidas, gritou internamente: “Ela é a melhor pessoa do mundo” – de tão altas, o coração transbordou, e todos ficaram sabendo que na natureza tudo se transforma. O prêmio da descoberta do novo superou a cura de uma visão estereotipada e distorcida das possibilidades de transformação de tudo.
Certa manhã, à beira do rio, uma andorinha pousou inquieta, convalescente e ensimesmada na frente da lavandeira, que realizava alegremente sua última lavagem de roupa. Aquela vinha esbravejando aos quatro cantos do mundo até encontrar-se naquele estado. Não foi através do barulho das águas que a lavandeira se fez entendê-la, a própria viajante alada, com muito esforço, deu-lhe o discernimento.
– “Uma andorinha só não faz verão”? Perguntou-lhe ofegante, achando que a amiga poderia ajudá-la.
– É o que todos dizem quando se sentem péssimos, não é verdade?
– Errado. Eu não me sinto bem trabalhando sozinha, no entanto, faço a minha parte porque a minha natureza me fez disposta a trabalhar durante todas as estações sabendo que só me realizaria quando fizesse verão.
– O que esperas de mim, D. Andorinha?
– Penso que a solidão também tem o seu lado bom. Pois veja bem, minha senhora, me mandaram periquitos e papagaios para ajudar no meu serviço…
– E daí?
– E daí que se formaram dois grandes grupos. O grupo dos papagaios comandava muito bem, tinha um ótimo discurso, era instigante por natureza. Os periquitos, por sua vez, cantarolavam como ninguém, seus feitos eram indispensáveis, além do mais, tranquilos e sociáveis.
– Por que estás tão abalada?
– Pobre de ti, senhora, não percebes que a natureza foi falha, uma vez que nenhum deles conseguiu enxergar a importância do meu trabalho individual? Nem mesmo enxergaram o que, sozinha, pude oferecer. Eu nunca me senti tão só, estando em companhia alheia!
A lavandeira percebeu que a andorinha tinha muita roupa suja para lavar, mas preferia carregar o peso daquela trouxa sozinha em vez de aceitar ajuda. Por isso, resolveu dizer-lhe as palavras sábias do dia:
– O infinito é distante demais para que carregues o teu pesar; sacode essa sujeira e voa livre no infinito azul. Reconhece-te a ti mesma, pois a ingratidão nada importará, quando passares a pensar assim, passarinho.
A andorinha não disse mais uma palavra. Olhou para o infinito de sua consciência individual, para o âmago do reconhecimento de si e voou. A lavandeira, vendo-a agora voar abertamente sobre aquele céu fulgurante, percebeu que no final tudo termina bem.
Moral: A alma se torna leve ao desprender-se do peso do julgamento alheio e, no final, tudo termina bem.