NOME PRÓPRIO

              Elciane de Lima Paulino

Eu gosto muito de gente

Que me trata pelo meu nome

Assim eu me sinto gente

Assim eu me sinto humano

Não é porque seja incomum

Que se opte por um pronome

Eu gosto mesmo de gente

Que me trate pelo meu nome

Às vezes, preferem chamar-me

Até mesmo por convenção

Com um tom bem burocrático

Pelo nome da profissão.

Por isso eu aconselho

Acrescentar o meu nome

Diante de cada palavra

Seja profissão seja pronome

Um nome assim como o meu

Carregado de tanto sentido

Merece ser pronunciado

Sempre no seu vocativo

Percebeu como fica bonito,

Mais prosódico e elegante?

Meu nome é mesmo bonito

Ilmo. Senhor Professor Dante.

A Esperança e o Sonho

Elciane de Lima Paulino

Aprendi que a esperança é irmã do sonho

E deste a frustração é pior inimiga.

Mas o sonho é um grande guerreiro

Montado a cavalo e com lança na mão.

Às vezes, a ilusão o confunde. Olhares.

E ele cai, presa fácil com as armas no chão.

A irmã se aproxima e diz:

– Levanta, grande guerreiro!

O amor que transborda no peito

É a mãe que acompanha o destino.

Recompõe tua alma, menino!

Deixa de ser besta e segue!

E o sonho, vexado, com o brio lançado

Renova suas forças. Levanta e remonta

No seu alazão com a lança na mão

E segue o caminho…

Esperança

Elciane de Lima Paulino

A mão sedenta numa caixa de surpresa

É a alma de quem espera por grande sonho.

O Desfile à luz do meio-dia. Alegria.

Contentar-se na fantasia a que proponho.

De repente, a perfeição inatingível

À espreita da incompletude humana.

“O essencial é invisível aos olhos”

 Quem vê o Sol, a força que de ti emana?

Nesse aglomerado de gotas diminutas

Acorda. Levanta a cabeça, sorri, segue

Pisa firme a matéria. Certezas abruptas.  

Vê Algodão colorido, flor do Sertão,

Que de um chão empedernido verde se ergue

Na mão sedenta de quem colhe a plantação.       

Namoro

Elciane de Lima Paulino

Hoje tem recordação

Nesse cantinho isolado

Vamos cantar bem juntinhos

No dia dos namorados?

– Lembra, amor?

Quando você tirou o chapéu

Segurou a minha mão

Com o céu todo estrelado

Feito noite de São João?

Ajeitei as minhas tranças

E o meu vestido bordado

E o coração derretido

Depois de um beijo roubado?

– Como posso esquecer?

No calor da emoção

Meus olhos eram centelha

Saltando de uma fogueira

Dentro do meu coração.

Convidei-a para dançar

O compasso de um forró

Me enlaçou num abraço

E a gente virou um só

Quando o refrão esquentou

Já era seu namorado

E pedia a Nosso Senhor

Pra colorir de retalhos

A nossa história de amor.

O menino que diminuía

Elciane de Lima Paulino

A professora do sexto ano sempre falou inúmeras vezes que bullying é ilegal e desumano, pois  submete alguém ao ridículo e provoca sofrimento. Mas parece que Santino fingia não ouvir, pois sentia prazer em diminuir Tonico diante dos colegas de classe.

Todos os dias, o menino, que não fazia jus ao nome, inventava uma espécie de “piada” para diminuir o outro: “tampinha”, “burro”, “pitoco”, “sibito” e uma série de nomes que compunham o acervo de sua criação perniciosa. Isso ainda era o de menos, porque na hora do recreio a intimidação conseguia ser pior: um empurrão daqui, uma cama de gato dali e uma série de risos contagiosos acolá.

Assim, na velocidade com que o problema se firmava, Tonico passou a se chamar Nico, ia diminuindo por dentro e por fora como uma árvore que cresce inclinada sem querer olhar para o sol e sem a aparência imponente de quem se ergue.

Um dia, sentiu-se mal, desejou ter faltado, mais uma das sucessivas faltas para seu histórico escolar não faria tanta diferença. Tudo porque durante a aula de Arte, a professora resolveu falar sobre o assunto de uma forma dinâmica: “Hora de colocar-se no lugar do outro”, e pediu que os alunos desenhassem um autorretrato interior, seguido de uma descrição de sentimentos.

Santino, o centro das atenções, caprichou no desenho, aguardando o grand finale de sua apresentação…

Porém houve mudança na condução dos trabalhos, todos deveriam trocá-los e, posteriormente, lê-los em voz alta. Por isso ninguém esperava. Santino recebeu das mãos de Tonico o produto do seu constrangimento. Segue a descrição: “Eu ainda sou um ponto que resiste à eficiência de uma borracha, eu sou o efeito do vale tudo na humilhação desonesta e imoral de um amigo que sempre quis ter…”

Envergonhado, Santino diminuía a cada ponto que via no entorno daquela sala. Sentiu-se diferente, sufocado com as ironias desprovidas de sentido que lhe sobrevieram na memória, incerto se havia esperança de voltar a se sentir como antes. Terminada a apresentação, perdeu a audição dos aplausos, e tremia feito bambu em vendaval. Bambu não, palmeira inclinada que resiste à velocidade do vento. Finalmente, colocou-se no lugar do outro.

Menina do interior

Elciane de Lima Paulino

– Vó, qual dessas estrelinhas é a senhora? Consegue ver daí que o mundo parou e virou uma interrogação bem parecida comigo, desde que a senhora se foi? A única forma de explorá-lo, neste momento, é da brechinha da janela do nosso quarto. Estou confinada nos limites da nossa casa, onde há pouca comida, falta água constantemente e também não há muito o que conversar. Se a Terra parou por causa de um ser que nem se consegue enxergar a olho nu, por que a senhora não me responde? De toda ciência que disponho…, suas sábias palavras são uma revolução aqui dentro: “Quando o homem não encontra a solução para um problema, a chave da resposta está no Céu.” Na melhor das hipóteses, é por isso que os templos viviam lotados de homens que, embora lutassem por igualdade promovendo guerras e desamor, clamavam por vitória e salvação – paradoxo da humanidade. Na época da seca, por exemplo, não disputávamos com demasiado egoísmo por uma migalha de pão e depois estendíamos as mãos para o céu? Em tricas eleitorais, não promovíamos a discórdia para ter a sensação de controle nas mãos… e depois de vencer dávamos graças a quem? Não mascarávamos o preconceito em perfis sociais idealizados, mesmo sabendo que todos somos imagem e semelhança de Deus? Mas essas reflexões são frutos de sua arte no meu interior. Ajoelhada, para a última oração do dia, antes de dormir, pergunto-lhe: e, agora, como extrair um sorriso nas curvas da exclusão, um verso no redemoinho da fome, um alento na linha do desemprego, um abraço no pontilhismo da guerra, um amor no traço do preconceito, uma esperança no caos da pandemia, a cor dos seus olhos no brilho de uma estrela?

ALEGRIA DE FORMIGA OPERÁRIA

                                                                                                                  Elciane de Lima Paulino

“Para alcançar a sabedoria é preciso desprendimento. Embora pareça inalcançável, ela se encontra acessível diante de nós. Mas exige sacrifícios para ouvir o coração quando a razão parece ter sempre razão.” Estas foram as palavras concentradas por feromônios da Formiga Sábia, que reconfortaram o mar de indagações construídas por Dona Formiga Operária para uma tomada de decisão.

Estava à deriva… Depois de tanto carregar as folhinhas verde-esperança com outras formiguinhas por longos dias, viu-se num cansaço descomunal. Porém, recebera da Formiga Rainha a melhor proposta do ano – não era lambuzar-se no doce de uma criança; também não era sentar-se à mesa farta com a classe social privilegiada; era apenas carregar um peso até cem vezes menor que o próprio peso.

“Oh, finalmente, agora dedicarei mais tempo para minhas formiguinhas, poderei cuidar mais da minha saúde, do nosso ninho e repousar por algumas horas”.

A felicidade, no entanto, não teve durabilidade. Descobriu que para diminuir-lhe o fardo, sacrificariam o bem-estar de uma amiga da mesma casta operária, o que não lhe pareceu formiga-humano. De fato, era-lhe a solução de muitos problemas. Embora suas dificuldades fossem imperceptíveis para outras, Dona Formiga mantinha latente em sua natureza minúscula a abnegação e o desejo de ver o equilíbrio socioemocional alheio.

“Devo aceitar? Traria prejuízos à colônia? A amiga operária não continuaria a viver? E não nascemos para ajudarmos uns aos outros? Que mal há em reduzir o trabalho de quem já não aguenta carga excessiva, mesmo que para isso…”? Demasiados pensamentos para um só par de antenas tatear…

À medida que surgia uma resposta, esvaía-se numa gota de lágrima até inundar-se no próprio “barquinho”. Longe da terra firme, buscava um sinal de sabedoria para tomar a decisão. Logo avistou outra formiga que navegava sobre uma folha estável para prestar-lhe socorro, dizendo-lhe aquelas sábias palavras, afastando-a da lógica de optar pelos próprios interesses, em detrimento da linguagem do amor.

Depois de ouvir a Formiga Sábia, as antenas de Dona Formiga emitiram o sinal de desprendimento dos planos passados e, resignada, libertou-se de seus maiores desejos em prol da felicidade da outra, entendendo que formigas choram, mas sacrificam-se, adaptam-se e sorriem com as novas folhas que hão de carregar.

Parabéns, Guarabira

                                                                                                          Elciane de Lima Paulino
Parabéns, Guarabira
Por mais uma primavera
De tua emancipação
Sou filha da aquarela
Que pinta na tua tela
O signo do teu brasão.

Já são 132

Tirando os que vivi
Só restam o que aprendi
Das tintas de tua história
Que guardo na minha memória
Desde o dia em que nasci.

Já trouxe nas minhas veias

O sangue do índio tupi
O negro dos meus cabelos
O branco do teu jardim
O verde de tuas serras
Há tudo de ti em mim.

Terra das garças azuis,

Desportiva azul e branco
Nos versos que hoje canto
Desejo progresso e luz
Que a nossa Padroeira
Dê vista mais altaneira

Ao povo que te conduz.

Cresci bebendo da fonte

De tua rica cultura
Ninada na formosura
Do colo de muitas mães
As cores do meu passado
Eu pinto num tom ousado
E peço que não estranhes.

Convido para tua festa

Artur Neto, o cantor
Elias dos Santos, o pintor
Marisa, a flor poetisa
Vicente, o historiador
Retratos que eternizas.

Presenteia um filho teu

Em nome de outros tantos
Dá a rima desse poema
Colorido de açucena
A Maria da Piedade
Um exemplo de mulher
Professora de teus filhos
De geração a geração
Que pintou de esperança
Tantos tons da educação.

Desejo para os teus anos

Um grande anseio poético
O direito de liberdade
Que lindo nos olhos vejo
A riqueza mais colorida
Para ti, terra querida
Nossa Rainha do Brejo .

Peço licença a Drummond

Para dizer que esse café
Depois do baião de dois
Delícias da D. Zarinha
Deixaram-me mais inspirada
Senão quase embriagada
Nessas apressadas linhas.

O limite da contrição está no entendimento do ato

Elciane de Lima Paulino

“Quem nunca cometeu pecado que atire a primeira pedra”. Ritinha ouvia o Pe. Arnaldo referir-se ao excerto muitas vezes durante as missas aos domingos, quando ia agarrada na barra da saia de Dona Luíza. Esta era alcunhada de Barata-de-igreja, mas não fazia questão porque o serviço religioso e a caridade eram a porta de entrada para o céu. Além do mais, dizia ela “eles não conhecem os desígnios de Deus”.

A menina aprendeu muito com o Pe. Arnaldo, porém entendia o contrário do que ele queria dizer. Assim acumulava ensinamentos religiosos distorcidos das intencionalidades cristãs.

Nos preparativos para o dezembro de 1900, havia muita movimentação na matriz. Pe. Arnaldo viajara às pressas para a santa terra estrangeira com o intuito de visitar uma tia muito querida, a qual, pelo que se comentava, estava “morre-mas-não-morre”. Felizmente, a visita do sobrinho fez bem, a saúde da tia foi restabelecida e o padre pôde regressar ao Brasil, trazendo consigo três pedras para o presépio da igreja. A representação do estábulo de Belém estava suntuosa e a beleza do Natal atraía os fiéis para os melhores registros fotográficos do ano, menos Ritinha. Nem a Estrela que guiou os três Reis Magos conseguiu ofuscar as pedrinhas alheias dos olhos da menina.

Na missa mais esperada do mês, ela percebeu que restava apenas uma pedra no presépio. Mais uma vez sentiu-se fortalecida por suas inocentes intenções, afinal compartilhava traços em comum com outros fiéis não menos assíduos que sua acompanhante de domingo.

Enquanto a velha amiga fazia a oração, Ritinha apressou-se, não pensou duas vezes: “essa é minha!” Agarrou a última pedra da terra santa e colocou-a no bolso. Depois da peraltice, puxou a saia de D. Luíza como quem insistisse para sentar no banco, antes que ficassem sem assento.

O peso da consciência foi maior que o do bolso, embora a menina entendesse que não levaria a pedrada de ninguém, afinal era o que mais o Pe. Arnaldo recomendava nas missas: “Atire a primeira pedra quem não tem pecado”. E a frase repetiu-se até a homilia. Mais uma vez o santo padre a salvou: “E disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus”.

Ritinha, na sua ingenuidade, entendeu que o lugar no reino celestial estava garantido. O reverendo continuou transmitindo os ensinamentos da igreja sem se dar conta de como o livre arbítrio da linguagem conduzia suas ovelhas. E Dona Luíza, se lesse esse conto jamais perdoaria Ritinha e perderia sua vaga no céu.

Gratidão

Parabéns ao Governo do Estado da Paraíba, que através da Secretaria de Estado da Educação, Ciência e Tecnologia promoveu a Primeira Festa Literária da Rede Estadual de Ensino!

A I FLIREDE na 2ª GRE foi preparada com muito amor, compromisso e engajamento na arte literária. Exposições e apresentações de belíssimos trabalhos realizados a partir da produção de sentidos de romances, contos, memórias, poemas, literatura de cordel, crônicas, valorizando as obras dos escritores locais, mais ainda, homenageando-os… foi uma sensação indescritível. Candido tem toda razão ao dizer que a Literatura tem um poder humanizador, pois senti nos versos, olhares, sorrisos e abraços de cada pessoa que compartilhou a sua arte a grande contribuição na formação humana e sociocultural dos nossos alunos. Rildo Cosson, em sua obra Letramento Literário diz que a literatura é considerada por muitos um saber desnecessário ou inacessível, mas os alunos, professores e gestores das escolas públicas estaduais mostraram o contrário do que muitos pensam. Em meio a tanta satisfação, busquei uma palavra para ressignificar a gratidão. Queria uma que a enlevasse no exato grau de acontecimento que ela provoca no interior de cada um, mas vi que isso só seria possível se libertasse todas as emoções para entregá-las de presente ao outro. Portanto faço uso da ideia de libertá-las em forma de poesia.

 

A Literatura ensina que

As mãos se estendem

E unimos forças

Quando somos rede

Versos pueris ensinam

Que crianças pretendem

Voar em papéis

No universo FLIREDE

Na festa de abertura

Sentiu-se nas nuvens

A professora Maria

Ao ser homenageada

Num Ataque Poético

Por seus ex-alunos

Na Praça Lima e Moura

Até os passarinhos

Fizeram canção

E junto aos artistas

De nossas escolas

Fizeram das tendas

Suas casas, seus ninhos

E os homenageados

Ficaram encantados

em contemplação

Foi lindo de ver

Erivaldo Resende

Elevar no seu verso

A sua nobreza

Enfeitando a rede

Com a sua estrela

Fazendo sorrir

o meu coração

Na festa em Belém

A rede ampliou-se

Porque a FLIREDE

Foi bem mais além

Juntaram-se as mãos

As cores se uniram

E muitos poemas

Que se libertaram

De suas gaiolas

Voaram bem longe

Para outros recantos

Das nossas cidades.

Na festa em Solânea

A semente poética

Há tempos brotou

E muitos dos frutos

Em rimas, em versos

Mostraram sabores

Da diversidade

As aves do céu

Buscaram nas flores

Todas as essências

Lançando nos montes

Da educação

E eu na saudade

Espero ansiosa

Pra ver a Leitura

Vestir-se de festa

Na próxima Festa

Porque a beleza

De nossa cultura

É o que nos define

Em identidade

Por isso eu quero

Lançar no poema

O amor à docência

Porque tenho sede

De ver mais pessoas

Juntarem-se a nós

Tecendo essa rede

Na II FLIREDE

Pra finalizar

Expresso no verso

De minha gratidão

A alegria do encontro

O conhecimento novo

O leito do rio

Que se fez no meu rosto

E digo com a força

Da minha natureza

Que na humildade

Eu tiro o chapéu

Para todos vocês

Que da força motriz

Levaram a Literatura

A palavra mais pura

E me fizeram feliz.