Hoje, despedimo-nos da maior expressão da poesia feminina guarabirense. Marisa Alverga inspirou muitos artistas de nossa terra e continuará inspirando gerações com sua letras idílicas, intimistas e temas universais. Numa de suas poesias, externou o desejo de ser sol para surgir todos os dias no horizonte da vida, com efeito, o seu brilho é resplandescente nos rumos de nossa história. Siga na luz, querida poetisa Marisa Alverga! Sempre teve minha estima e consideração.

Pessoa e Caeiro em: Diálogo sobre o amor

Elciane de Lima Paulino

_ A alma de um pastor, Pessoa

O desabrochar do amor conhece.

_ Só de pensar, sinto que cansa

Pesa-me o amanhecer e anoitece.

_ Mas o negro astral assiste

O nascer da estrela triste

Que ama só o luar celeste.

_ Cerca de grandes muros são astros

Que me ocultam à Lua de ver.

_ Deixa as flores que vêm do chão crescer

Que as borboletas de tão pretas

Farão contraste do luar ao amanhecer.

_ Amigo Caeiro, o amor que sonhas

É como a flor nativa da roça

Que ervas sarcásticas risonhas

Para ti perdem e não há quem possa.

_ Parece que, tirando-lhe o meu chapéu,

Do cimo desse outeiro

A luz do meu candeeiro

Não é maior que a do céu inteiro.

_ Enquanto te ouço, no tempo nublado

Ela se esquenta num branco candor.

_ Para ti, nuvem quente é seu namorado?

Para ela, talvez, a carência de amor?

_ Cessa o teu canto. Fizeste-me chorar

Brandaram encanto na alma chuvosa

Teu versos fagueiros de afável pomar

Mas já amanhece, o sol aparece

E a Lua se esconde do meu doce olhar.

“Pro dia nascer feliz”

Elciane de Lima Paulino

  “A esperança não murcha, ela não cansa” – disse-me, uma semana atrás, ao pé do ouvido, a voz do poeta, minutos depois de eu entrar numa sala de aula remota, numa das turmas dos anos finais do ensino fundamental, e sair como entrei: boca e ouvidos cerrados, olhos e coração abertos.

          Não descreverei o fracasso, apenas rememorarei a lição do poeta. Prefiro prestar atenção ao propósito daquela voz, já que hoje, no momento em que lancei o link de uma nova aula, uma nova tentativa “sem a expectativa da audiência”, algo interessante me sucedeu.

          PLUCT.

          – Bom dia, Professora!

          – Bom dia, Carlito! Tudo bem?

         Desta vez, havia um menino, na verdade um gigante, do outro lado da tela, nu da cintura para cima, interagindo comigo. Não o censurei por mostrar o traje a pele, ao contrário, compreendi que o importante é que estava ali para o dia nascer feliz!

          Iniciei a aula com todo o cuidado para o gigante não adormecer – o menino gigante, nu da cintura para cima, que usava o celular da “irmã”. A aula correspondente à oficina número um da Olimpíada de Língua Portuguesa começou bem.  

          – Leia este fragmento do texto Transplante de menina, da escritora Tatiana Belinky.

          – Calma, Professora. Eu não sei ler direito.

          – Tudo bem, eu estou calma. Eu espero o seu tempo. – E esperaria o tempo que fosse necessário, pois o sentimento de gratidão que me preenchia era a expressão de uma dívida que nunca se paga, afinal, ser professor num contexto de ausências, é satisfazer-se com o mínimo de participação, cujo alcance é a síntese do pensamento poético: A esperança não murcha…

          – Desculpa aí, tia! (Interrupções: “Bora, Carlito!”; “Oxente, menino, ele tá estudano!”). Gritos confundiam-se com a festa de um passarinho (Amadina fasciata) que não parava de cantar na “casa do menino”. Enquanto isso, Carlito soletrava as palavras, e eu tentava soletrar o mundo à sua volta.

          – Muito bem, Carlito! De que se trata esse texto?

          Ele entendeu que se tratava das lembranças da narradora ao ver o carnaval no Rio de Janeiro pela primeira vez. Mas eu ainda não havia compreendido o porquê de escrever “irmã” e “casa do menino” entre aspas em parágrafos anteriores, mas logo o leitor saberá.

          Havia planejado uma atividade com dez questões, entretanto, pedi que copiasse e respondesse apenas cinco. Eu o aplaudia à medida que ele copiava e respondia… um… dois… três… quatro… cinco…

          – Não estou acostumado a escrever isso tudo não, Professora! Eu escrevo devagar demais. E ela tá precisando do celular.

          – Ela quem? Sua mãe?

          – Não, minha irmã. Minha irmã não. A neta da mulher que é dona dessa casa onde vivo com meu pai.

          – E sua mãe?

          – Minha mãe morreu mês passado, mas não foi de COVID.

          – Entendi. Sinto muito, meu querido… Já estamos no final da aula… Você concluiu com maestria a atividade proposta. Parabéns! Obrigada pela participação! Se não fosse você, eu estaria comigo mesma nesta sala.

          – Fazer o quê? Tem que estudar para ser alguém na vida e pro dia nascer feliz!

          E o gigante despediu-se sorrindo.

          Para o dia nascer feliz, eu poderia ter seguido os conselhos do mestre Ricardo Azevedo em seu livro Contos de enganar a morte, ultrapassar o sistema burocrático da escola em delimitar os horários das aulas e ter ficado mais alguns minutos para falarmos sobre o luto; eu poderia ter evoluído em termos humanitários e sido generosa, mas dentro de mim, uma flor pávida reergueu-se junto àquela, a que o poeta nomeou de “Esperança”, e comecei a dançar a canção daquele passarinho com passos de marchinha de carnaval. Enquanto isso, o menino gigante cresceu ainda mais diante de mim, ultrapassando os limites da perda e transformando ausências em evolução.

Quem espera um namorado

Elciane de Lima Paulino

Dona Maria, minha vizinha

Tinha muito a nos contar

Sobre a sua esperança

De um dia encontrar

Um rapaz bem apanhado

Ou um tanto educado

Para sempre namorar

Aos domingos não perdia

A escuta de um sermão

Uma palavra bendita

Que lhe desse em oração

A certeza da promessa

Pois assim não tinha pressa

De encher seu coração

Ia às festas com as amigas

Pra tentar se divertir

Os moços com quem dançava

A chamavam pra sair

Mas ela não aceitava

Porque pouco interessava

Onde eles queriam ir.

Ela tinha papo reto

“Comigo é pra casar

Essa história de xaveco

Paquerar ou só ficar

Para mim, é ilusão

Uma vã consolação

Eu quero é namorar”.

Quando era feriado

Não perdia uma praia

Um biquíni bem cavado

Coberto por uma saia

Um decote avantajado

Que ficava disfarçado

Numa tomara que caia

Ela tinha predicados

Era mesmo um mulherão

Que os rapazes comentavam

“Muita areia, caminhão!”

Faltava-lhes eficiência

Para quebrar a resistência

Com uma declaração.

Investiu alguns olhares

Num rapaz trabalhador

Era um homem enrolado

Enroscou-se com ardor

Logo se tornou passado

E um fruto desse passo

Tornou-se o seu amor.

Mas um filho tem destino

De crescer e de voar

E uma mulher bonita

Sozinha não quer ficar

Quer um homem do seu lado

Um rapaz bem educado

Para sempre namorar.

Um rapaz bem educado

Para ela era assim

“Tem de ser equilibrado

E charmoso para mim

Amoroso na pegada

E firme na sua palavra

Um companheiro sem fim”.

Pois não é que certo dia

Ela estava bem faceira

Sentada na sua calçada

Conversando besteira

De repente aproximou

Um jovem que lhe chamou

Pra viver a vida inteira

É com ele que ela vive

E são muito apaixonados

Ela diz que é feliz

Com o seu enamorado

Espelhe-se na confiança

Quem espera sempre alcança Um amor bem apanhado.

Amor-perfeito

Elciane de Lima Paulino

Violeta, que julgava normal,

buscava um amor somente seu

Que a enxergasse

Além das imperfeições criadas

por olhos de diversas cores

Que se declarasse todos os dias

Mesmo que o tempo modelasse

o perfil do primeiro encontro

Que lhe trouxesse notícias boas

Para alegrar-se com a troca de um sorriso

Que lhe trouxesse as más notícias

Com as mãos entrelaçadas, pulsares, ardores, amores

Ou que lhe desse flores

Como uma intenção bela, singela

Influência forçada não.

Ideal de quem julga normal.

Atraída pelo bel-prazer

De retribuir esse amar a dois

Refletem em seus olhos a metade da laranja provada

Um coração de viagens e naufrágios

Divagando num quarto solitário

Pergunta ao reflexo empoeirado do espelho

– Quem é digno de um amor perfeito?

O poder da palavra

Elciane de Lima Paulino

É verdade que a palavra tem poder. Ela é coesão, coerência e incoerência. Não há tecnologia mais avançada, ferramenta mais indispensável no dia a dia, objeto mais instigante do que a palavra. Ela ocupa lugar privilegiado na sociedade e na consciência individual. É interessante como imergimos em utopias, compartilhando-as mutuamente, mesmo sabendo das precárias ou inexistentes condições de torná-las uma realidade – isto se deve à quê? À palavra. É filosoficamente dialética, quando na interação entre sujeitos conseguimos objetivá-la de modo que o outro a compreenda em todo contorno de seu perfil discursivo; é curiosamente capaz de magoar, alegrar, ferir, reconfortar, enfim, inúmeras possibilidades de ações, omissões, sim, ela também tem o poder de silenciar, de prender-se subjetivamente num eu que não se pretende revelar. Palavra é mistério.

Vale atentar para outra peculiaridade da palavra – a de estabelecer conexões entre as pessoas. Ela serve de elo e ao mesmo tempo transcende para a função de quebrar esse elo. Ou seja, ideologicamente, a palavra liga ou afasta as pessoas a imensuráveis distâncias, mesmo que estas são sejam fisicamente observáveis, explico: já foi dito que a palavra, tendo se formado no psiquismo do indivíduo, exterioriza-se mudando de aspecto, pois é obrigada a apropriar-se do material exterior. Isto quer dizer que geralmente, ao se materializar, mesmo que ela não distancie fisicamente os indivíduos, ao ser recuperada pelo contexto, torna-se ainda mais cruel, dissipando-se nas aparências ou travestindo-se de uma intenção não muito clara e, portanto, incompreensível.  Neste caso, sendo incompreensível, não há comunicação, não há ligação, não há coesão entre as pessoas. Esta é a natureza da palavra.

Há quem acredite que ela vem de fora e sem pedir licença invade nossa vida, nesse caso a considero crime hediondo. Quem já se viu apropriar-se da intimidade de alguém sem que haja consentimento. Palavra indecorosa!

O livro Gênese diz assim: “No princípio era o Verbo e o Verbo Divino se fez carne”. Na perspectiva criacionista, ela parte do princípio idealista ou objetivista? Ah, a Palavra, a palavra!…

A palavra adapta-se facilmente às incoerências da vida, refletindo-as perfeitamente. Este é um ponto que a ciência deveria debruçar-se ainda mais: o signo linguístico, num processo de semiose, transforma-se em novo signo ideológico, refratando tantas imagens de si mesmo que se torna difícil explicar a sua complexidade.

Foi através da palavra que conseguiram deturpar minha imagem. Eu não pretendia fingir-me de poeta, nem pretendo ser nessas condições. Os poetas que me entendam, reconheço a importante missão de lidar com ela.

A pior face da palavra é quando ela consegue subjugar o indivíduo na força da expressão. Politicamente falando, às vezes é necessário seguir padrões, instintos sociais, num mecanismo de censura em que não se permite burlar seu sistema. Quanto a isso calo-me. Ou melhor, “Pai, afasta de mim esse cale-se!”

E o que temos nós a ver com isso? Tudo e nada. Devemos conhecer esse objeto de estudo… Devemos saber de leis fonéticas que a tornam palpável… Devemos saber usá-la nas diferentes situações… Devemos ter o devido cuidado para não desviar de suas normas,… Devemos ser coerentes sem receber nada em troca…  devemos usar conectivos e sermos claros e objetivos… Devemos nos unir nessa instigante utopia chamada “palavra” sem nada recusar? Devemos intertextualizá-la, considerando seu poder de encadeamento, de prosseguir em outros discursos… Palavra conflituosa gera conflito, mas também pode gerar silêncio, palavra erótica pode proporcionar prazer, mas também pode gerar um desprazer, palavra amiga promove a amizade dependendo de quem e de como a pronuncia. A palavra se ensina. Os verdadeiros sábios lidam bem com essa ferramenta.  A qualidade dela, suas nuances e regras externas que possibilitam sua objetivação é que determinarão ou não a interação – a palavra é a chave do entendimento e da (re)ação, eis o poder da palavra.  

A velhice busca o jardim

Elciane de Lima Paulino

A velhice busca o jardim

 O marido jamais saberia o prazo de expiração da mãe… A esposa não desistiria de ser o centro das atenções do marido. Além disso, o amor matrimonial exigia cuidados especiais: carpe diem! Aproveitar o amor conjugal em detrimento do velho amor materno, que se tornara excessivo para um lar a dois. Não fosse a saúde debilitada da Dona Nita ou se esta tivesse ao menos uma aposentadoria para ajudar nos custeios da farmácia, mas não! Diante do problema dantesco, Rita esperou Zeca despedir-se da mãe com um abraço filial. Conferiu as quatro paredes da sala e, como que o terreno estivesse livre, injetou indelicadezas nos ouvidos da sogra.

Mãe de filho único, Dona Nita galgara a terceira idade com a triste constatação: não precisava de filhos agora, mas carecia de um ombro amigo, ou de, pelo menos, a atenção de cinco minutos para aliviar os ouvidos da Zulmira – boneca de pano e produto de sua solidão. Chega de trazer sofrimento para meu filho – pensou. Determinada, arrumou a mala: Zulmira, um vestido desbotado e uma calcinha. Partiu para um albergue distante dali. Seria feliz? Já fazia anos que ela nem sabia o que era sorrir de verdade.

Instalou-se no Sênior Center – um triste jardim, cujas rosas exalavam o perfume do abandono. Recolhendo-se à ‘sua insignificância’ no mundo daqueles que têm pressa de ser feliz enquanto há tempo, contentou-se em dividir o quarto com a Dona Maria, vítima de Alzheimer. Ambas faziam companhia uma à outra, tricotando fantasias de um passado inexistente, tentando aquecer a brasinha de felicidade surgida no novo lar.

Assim conheci Dona Nita – eu vestida de palhaça do grupo da Alegria, ela de desesperança. Desse encontro, desejei ser heroína e receber daquele rosto, petrificado pela indiferença, um sorriso sincero. Minhas inúteis tentativas levaram-me a chamá-la de mãe e, para não sair dali sem a sensação de um dever cumprido, perguntei-lhe se gostaria de pedir-me alguma coisa. Suavemente seus efeitos faciais contornaram a cena, e ela sorriu:

– Você me chamou de mãe?

Ao confirmar, ela sorriu mais uma vez, mas não me deu resposta. Pela frustração do abandono, apenas disse que se eu pudesse sempre que possível fazer-lhe uma visita já que estava precisando tanto… Despedimo-nos num abraço – eu, ela e Zulmira. No silêncio, ela espera o retorno de uma alma leve e nova que acaba de sair do seu jardim.

“EURECA”

Elciane de Lima Paulino

Nasceu num buraco, no Buraco de Recônditos, e morou num castelo de reboco, cujas brechas da parede ecoavam ilusões. Desenvolveu atrofia verbal, ouvindo que quem nasce em desvantagem não tem vez nem voz, desafina quando canta, mete-se onde não é chamado e fala como Aderbal (mesmo com monossílabos).

“Em boca fechada não entra mosquito” – assim foi alfabetizado e concluiu seus estudos. Entrando mudo e saindo calado.

No exercício da profissão, enfrentou paradoxos: “o silêncio é a melhor resposta”, mas não podia dar nota máxima ao silêncio dos outros; “o voto é secreto”, mas “o silêncio ideológico é ignorância política”; o deslize de um “ai”, e “sua língua é maior do que a boca”.

Foi aprendendo a falar, mas as palavras entravam num ouvido e saíam pelo outro. Entendeu que a palavra é assunto de poeta.

Prosseguiu seu destino, procurando respostas no silêncio, sonhando glaucômico. E numa dessas noites – “EURECA!” – nasceu a primeira hipótese de seu raciocínio imaturo: “Uma imagem vale mais que mil palavras”.