Oh, velha árvore, que todos os dias em ti descanso Dos teus galhos, faço berço e imerso no sono profundo Só tu deste ouvidos às meras letras desse sitibundo E apenas do teu lado – todos os meus problemas desenrascanço. Incontáveis foram as quedas que levei do teu rústico balanço Das histórias que contaram nas tuas raízes, lembro-me cada segundo Tu te mantiveste firme esse tempo todo nesse solo infecundo E mesmo assim dos teus doces frutos eu me abasteço. Ao alvorecer, ouço pássaros que alegremente nos teus galhos cantam Ao meio dia, da tua sombra todos os animais festejam Ao crepúsculo, o tenebroso canto do urutau assombra os moradores. Podas são feitas todos os anos para que não tenhas expansão Ouço teus gritos, não com ouvidos, mas com meu coração Fique viva, velha amiga, pois te perder é um dos meus temores. Poema produzido pelo aluno Marcos Antônio Gomes Araújo, do 2º Ano do Ensino Médio, da EEEFM John Kennedy, durante o Projeto INTROSPECÇÃO POÉTICA DE AUGUSTO DOS ANJOS NOS EUS DO SÉC. XXI.
Memórias
Desde a infância, cresci com esse sentimento De voltar no tempo e reviver momentos Onde já não é mais possível retornar a esse vínculo O quão doloroso foi encerrar esse círculo. Criamos memórias inesquecíveis Poder relembrar é inacreditável Relatar me leva a um cenário extenso Quando me recordo do inferno. Você me chamou e me abraçou Sua amizade era tudo para mim Hoje entendo por que me deixou. Após esta longa e dura caminhada Que possuí maturidade Para viver em liberdade. Poema produzido pela aluna Mayellen Ferreira Matias, do 2º Ano do Ensino Médio, da EEEFM John Kennedy, durante o Projeto INTROSPECÇÃO POÉTICA DE AUGUSTO DOS ANJOS NOS EUS DO SÉC. XXI.
Eu
Eu vivo na escuridão Por fora, alegre e contente Por dentro, dor e solidão Mas tento agir normalmente. Muitas coisas me irritam Simplesmente tudo me incomoda Enquanto os outros se agitam O mundo para mim não roda. O silêncio me acalma O barulho me agita Dormir relaxa Minh'alma. Nos sonhos, nada me rouba a paz Pois neles eu sou o que quero Mas na vida real nada me apraz. Poema produzido pelo aluno Fernando Jesus da Silva Martins, do 2º Ano do Ensino Médio da EEEFM John Kennedy, durante o Projeto INTROSPECÇÃO POÉTICA DE AUGUSTO DOS ANJOS NOS EUS DO SÉC. XXI.
Amigo
É raro encontrar um tesouro?
Porque se das coisas o valor
Não só a elas pertence
E o coração da gente
Vislumbra o seu esplendor,
Eu vejo raro tesouro
Guardado em cada amigo
E também guardo comigo
O que a eles pertence
Amizade é, pois, semente
Que existe dentro de gente
Dotada de grande valor.
Elciane de Lima Paulino
Gota de orvalho
Elciane de Lima Paulino
Quem sacode a poeira
Vê a cor do céu azul
Quem tem medo de cair
Perde o voo pra Istambul
Quem habita o oceano
Não dá nó em pingo d’água
É remar contra a maré
Viver sem um pingo de fé
Quem viveu em tempestade
Faz bolinha de sabão
Com uma gota de orvalho
Volta e meia o mundo gira
Gira porque tem de girar
Eita que roda gigante!
Sobe, desce, sobe, desce…
Por que a água não cai?
Chove chuva, chove chuva
Tire o cavalo da chuva.
Conversa de bicharada
Elciane de Lima Paulino
No reino animalesco, de tudo há. E os bichos nomeiam tudo o que veem, errônea ou acertadamente, a boca diz sobre aquilo de que o coração está cheio.
Certo dia, uma capivara conversava com uma preá sobre as postagens da cutia nas redes sociais. Na conversa, até o porquinho-da-índia foi vítima de censura e isso chamou atenção.
“Estás vendo o bicho que ela arrumou? É muito diferente dela, tem cara de preguiçoso, só combina porque é dentuço, mesmo assim é pequeno demais! Só pode ser para roer tudo o que ela tem, afinal, o que ele tem para oferecer”?
Dona Preá sentiu-se incomodada com a palavra “pequeno”, pois jamais ultrapassaria 25 cm de altura e, logo, rebateu: “Não sei como ele aguenta uma bicha pesada daquelas. Nem de carne se alimenta a sua espécie”!
Palavras vão e vêm, palavras que o vento leva, de repente, chegaram aos ouvidos da cutia que também resolveu falar: “Tem bicho que é defensor pra levantar sua bandeira, mas, em matéria de amor, somente pia besteira. Já tem outros chilreando sem se olhar no espelho. Avalie-se primeiro, isso é bom e aconselho!
Para acalmar a bicharada, apareceu um macaquinho espertalhão: “Quem se serve de banana”?
– Nem de banana eu gosto! – disse Dona Capivara.
– Quem tiver sua banana, de mim não esconda! – acrescentou Dona Preá.
E o macaco continuou: “Pois bem, cada um se serve daquilo que lhe convém. Deixem a vida do outro e cuidem da vida que têm, pois o mau gosto alheio não diz respeito a ninguém!
Uma reflexão, sobre o ofício de professor, que se fez pertinente para o dia de hoje:
A profissão de professor contempla um dinamismo indispensável na formação de cidadãos, especialmente, porque quando se dá a transmissão de conhecimentos, há não apenas uma intenção conteudística em jogo, mas uma preparação prévia que considera o aluno em seu contexto sociocultural, sua singularidade e a relevância do conteúdo para a vida presente e futura do estudante e de sua comunidade. Valoroso! Dito isto, percebe-se que existe um forte altruísmo na docência e a expectativa de reconhecimento do caráter humanitário e de transformação social. Aqui não se trata de um reconhecimento público-midiático com discursos proferidos aos “quatro ventos do mundo”, embora meritório para qualquer profissão, mas o reconhecimento de um olhar, um sorriso sincero, um abraço de gratidão contido nestes gestos simples, possíveis e capazes de reprimir qualquer atitude egoística de pensar que sozinho se chega a algum lugar. Na educação, cada ser se realiza e se transforma numa relação mútua, complexa e interdependente.
Elciane de Lima Paulino
Tião, o mentiroso
Elciane de Lima Paulino
1
A mentira, minha gente
Tem mil faces mascaradas
Com narizes bem compridos
E bocas estrebuchadas
Não se engane, pois somente
Não sabe aquele que mente
Com a cara mais deslavada.
2
A saga de mentiroso
Não é difícil de encontrar
Tem Penélope de Ulisses
Tem João Grilo e Baltazar
Mas é sobre Tião Fava
da língua dissimulada
Que eu quero aqui falar.
3
“Ideias vêm de um sábio
Eventos, de um mediano
Falar de alguém, é pequeno”
Disso eu sei e não me engano
Mas Tião bem que merece
Ele mesmo reconhece
Que mente há muitos anos.
4
Desde muito pequenino
Ele aprendeu mentir
Viu que aquilo era bonito
A todos fazia rir
Na face da inocência
A mentira deu sequência
Nas formas de existir.
5
Dos livros de sua infância
Pinóquio foi excelência
Porque fugia da escola
E negava obediência
Na face de combalido
Aos poucos era engolido
Pela voz da consciência.
6
Volta e meia Tião chegava
Mentindo para seus pais
Dizendo que achou dinheiro
Entre outras coisas mais
Face da descompostura
Deu seu grito de bravura
Com seus atos imorais.
7
A mentira, minha gente
Tem encantos de sereia
Em discursos joviais
Talento corre na veia
São mil faces mascaradas
Mil mentiras deslavadas
Caíram na minha teia.
8
Nas memórias de Tião
Em sua fase varonil
Enganou muitas mulheres
Um comportamento vil
Nessa face indecente
Um sorriso inconsequente
Nos retratos do Brasil
9
Saiu pra arranjar emprego
Foi em busca de sua vez
Na bodega do galego
Por um tempo ele se fez
E o leitor já desconfia
Da face de estripulia
Na frente do seu freguês
10
No caminho do destino
Arrumou um casamento
Só chegava tarde em casa
Tinha fama de ciumento
Era muita presunção
Na face da traição
Um farsante monumento
11
A mentira, minha gente
Canta em berço coletivo
Nas lábias de um político
Em meio administrativo
Tem notas de sacanagem
Face de politicagem
De um povo seletivo
12
Pois não é que o mentiroso
Foi ao palco num comício
Mentindo ao microfone
Aquilo virou um vício
Eloquente na balbúrdia
Na face estapafúrdia
Tião prestou seu desserviço
13
Gente, precisava ver
No dia da votação
Eleitores enganados
Com as promessas de Tião
Brigavam sem ter motivo
Face de um povo sofrido
Foto da corrupção.
14
Eu falei… Eu avisei
Quando ele se elegeu
“Cadê o pão que tava aqui?”
“O gato comeu.” “Comeu?”
“Cadê o gato?” “Fique pasma!”
Era um mito! Era um fantasma!
Ah, o povo enlouqueceu!
15
A mentira, minha gente
Anda entre caçadores
Entre homens e mulheres
Nas redes de pescadores
Mentem pra passar o tempo
Iludir o contratempo
Despistar seus dissabores.
16
Veja, o homem em questão
Um dia foi comprar peixe
Colocou a mão no bolso
“Ô não tenho, então deixe!”
O pescador teve pena
“Depois cê traz sem problema
Vá em paz, e não se avexe!”
17
Mas é brincadeira não
Tião estava mentindo
Tinha no bolso o dinheiro
Por dentro estava rindo
“Ladrão que rouba ladrão
Tem cem anos de perdão”
Eita, que Tião bandido!
18
Quando ele chegou em casa
Disse pra sua mulher
Trouxe mistura, Ana Fava
“Mentira! E o que é?!”
“É peixe! Foi de um amigo
Que um tempo estudou comigo
Na escola do migué.”
19
Teve um dia em que esse moço
Foi para a delegacia
Pois furtou um celular
Pertencente a Maria
Ficou tão aperreado
Mas a face de culpado
Escapou dessa agonia.
20
Ele arrumou um jeito
De dizer pro delegado
Que achou o celular
Na esquina abandonado
“Se soubesse de quem era,
Entregaria na vera.”
Inda foi recompensado!
21
Você pensa que Tião
Não posava com decência?
Frequentava a igreja
Com cara de inocência
Até lá ele aprontava
Com a cara deslavada
E pedia a Deus clemência.
22
Para o padre da cidade
Escreveu de próprio punho
Uma carta revelando
Mais um falso testemunho
Isso foi em fevereiro
E o padre fugiu ligeiro
Só voltou no mês de junho
23
Porque na comunidade
Quando aparece um fuxico
Enquanto não se descobre
Que é apenas mexerico
É tanto constrangimento
É plateia, é julgamento
Você diz: “Aqui não fico!”
24
Quando o padre regressou
Pra tirar Tião a terreiro
Celebrou uma bela missa
Convidou Tião primeiro
Na hora da homilia
Foi aquela baixaria
Indireta o tempo inteiro.
25
A mentira, minha gente
Tem um jeito de lavar
Arrepende-se do crime
E diz não mais praticar
Mas quando se nasce torto
Morre e não está disposto
A tentar se consertar
26
E o tal do mentiroso
Carrega dentro de si
Um passado pesaroso
E dívida pra se cumprir
Só que pior do que isso
É que ele não deixa disso
Desse hábito de mentir.
27
Geralmente, é na morte
Que vem arrependimento
Mas não pense que é o caso
De Tião Fava Nascimento
Pois na hora em que o Senhor
Julgou esse malfeitor
Ele disse: “Aqui não entro”.
28
Até na hora da morte
Ele se fez mentiroso
Pois usando aquela máscara
De homem velho orgulhoso
O infeliz das costas ocas
Botou a língua na boca
E foi pro inferno opinioso.
GUARABIRA
Elciane de Lima Paulino
De morada dos guarás
para o que és agora
ascendeste, Guarabira
apeada da outrora
flama ardente ergue a mão
rosto ilustre é teu brasão
reluzente na espora.
No teu corpo magistral
ventre de cidadania
gerações de multicor
honra imensa galhardia
tem teus filhos com fulgor
pois geraste com amor
mãe alegre, estrela-guia.
Nas origens do teu nome
Tu és árvore das garças
leste a oeste, norte a sul
sementes, ao solo, esparsas
Com trabalho noite e dia
teu povo traz alegria
para o futuro das massas.
Segurando-me teus braços,
lá no bairro do Nordeste,
vejo o Frei Capuchinho
orando em penhor agreste:
_ Peço a Ti, Senhor Jesus,
bênçãos pra Terra da Luz,
santuário que me deste!
Tua voz é gratidão
diz a língua do teu povo:
_ Obrigado, Deus do Céu,
por dar sempre rumo novo
aos trilhos de nossa história
desde a mais tenra memória,
é por isso que Te louvo!
Vejo ainda ao teu redor
passarinho alegremente
beija-flor do juazeiro
entoando à nossa gente:
_ Parabéns, oh Guarabira,
Flor maior que nos inspira
nesse canto envolvente!
Das belezas citadinas
valorizo o teu luar
refletindo luz noturna
na criança, em cada olhar
e as estrelas dão sinais
e as preces das catedrais
graça e luz em cada lar.
Os cabelos engalhados
enaltecem tua beleza
desde a Serra da Jurema
tua fonte natureza
frutos doces ambrosia
montes verdes primazia
vida agreste realeza.
Minha musa inspiradora,
Peço com humildade e fé
um jardim com arvoredos
Na Ponte do Jacaré
em toda tua extensão
brote vida, coração
Terra-Mãe, Terra-Mulher.
Pra teu filho, Guarabira
eu ensino este refrão:
“aprender é teu destino
é sonhar com o pé no chão
Sê amigo da justiça
e defende esta premissa:
paz, saúde e educação!”
A lição da calça jeans
Elciane de Lima Paulino
Não era a escola dos meus sonhos, mas cumpria uma importante função – e que função! A sala estava quente como nunca; os ventiladores não funcionavam… Mas nordestino não pode reclamar do tom abrasivo do tempo, já que este sempre pode surpreender. Ao menos a sala era ampla para a quantidade de alunos, isso minimizava o “efeito estufa” daquele início de manhã. Uma cadeira velha e vazia identificava o atraso de uma boa menina que raramente faltara às lições. Maria era disciplinada, esforçava-se como uma formiguinha carregando sobrepesos para compensar os prejuízos causados pelo complexo sistema de organização social – uma estrutura para se colocar defeitos, porém convido-o a prestar atenção na lição de hoje. Para isso, retomarei um acontecimento do dia anterior.
Era meio dia, os raios solares pareciam contornar as rachaduras do chão, quando ouvi da cozinha de minha casa uma voz feminina chamando ao portão.
– Pois não…
– Oh, minha filha, você não tem uma roupa perdida que não sirva mais? – Havia uma sacola de roupas retiradas do armário por não me servirem mais, dentre elas, uma calça jeans esgarçada, castigada pelo sol, pelo tempo e pelos meus olhos ao julgá-la velha demais para merecer as prateleiras de um guarda-roupa.
– Tenho uma sacola de roupas, mas a senhora verá que algumas não lhe servirão, então peço que as retire e lhes dê o destino que merecem.
A senhora agradeceu feliz e retirou-se carregando o volume sobre a cabeça.
Hoje, pelas repetidas vezes com que ocorre, esse acontecimento banal, naturalmente, estaria apagado dessas linhas se os olhos de Maria fossem tão criteriosos como os meus. Naquela manhã, a menina entrou radiante na sala, os olhos traziam a diferença de um brilho a mais, e a sala inteira reparou no seu “bom dia”. Não resisti ao elogio:
– Como você está linda!
Ela fez trejeitos de quando ficamos sem jeito diante de um gracejo. O sorriso da menina desabrochou e junto a ele a lição do dia:
– É que estou de roupa nova!
Nesse momento, reparei a roupa que a menina vestia: uma blusa amarela, retirada da sacola que uma senhora recebera ao portão de minha casa no dia anterior, e uma calça jeans esgarçada, castigada pelo sol, pelo tempo e pelos meus olhos, que nunca mais foram os mesmos.
Difícil avaliar o impacto que essa menina provocou em meus conceitos ao entender que aquela calça ainda merecia uma prateleira e, mais que isso, serviria de inspiração para entender que professores também aprendem nobres lições naquela e noutras escolas que ainda não são as dos nossos sonhos.