Elciane de Lima Paulino
1
A mentira, minha gente
Tem mil faces mascaradas
Com narizes bem compridos
E bocas estrebuchadas
Não se engane, pois somente
Não sabe aquele que mente
Com a cara mais deslavada.
2
A saga de mentiroso
Não é difícil de encontrar
Tem Penélope de Ulisses
Tem João Grilo e Baltazar
Mas é sobre Tião Fava
da língua dissimulada
Que eu quero aqui falar.
3
“Ideias vêm de um sábio
Eventos, de um mediano
Falar de alguém, é pequeno”
Disso eu sei e não me engano
Mas Tião bem que merece
Ele mesmo reconhece
Que mente há muitos anos.
4
Desde muito pequenino
Ele aprendeu mentir
Viu que aquilo era bonito
A todos fazia rir
Na face da inocência
A mentira deu sequência
Nas formas de existir.
5
Dos livros de sua infância
Pinóquio foi excelência
Porque fugia da escola
E negava obediência
Na face de combalido
Aos poucos era engolido
Pela voz da consciência.
6
Volta e meia Tião chegava
Mentindo para seus pais
Dizendo que achou dinheiro
Entre outras coisas mais
Face da descompostura
Deu seu grito de bravura
Com seus atos imorais.
7
A mentira, minha gente
Tem encantos de sereia
Em discursos joviais
Talento corre na veia
São mil faces mascaradas
Mil mentiras deslavadas
Caíram na minha teia.
8
Nas memórias de Tião
Em sua fase varonil
Enganou muitas mulheres
Um comportamento vil
Nessa face indecente
Um sorriso inconsequente
Nos retratos do Brasil
9
Saiu pra arranjar emprego
Foi em busca de sua vez
Na bodega do galego
Por um tempo ele se fez
E o leitor já desconfia
Da face de estripulia
Na frente do seu freguês
10
No caminho do destino
Arrumou um casamento
Só chegava tarde em casa
Tinha fama de ciumento
Era muita presunção
Na face da traição
Um farsante monumento
11
A mentira, minha gente
Canta em berço coletivo
Nas lábias de um político
Em meio administrativo
Tem notas de sacanagem
Face de politicagem
De um povo seletivo
12
Pois não é que o mentiroso
Foi ao palco num comício
Mentindo ao microfone
Aquilo virou um vício
Eloquente na balbúrdia
Na face estapafúrdia
Tião prestou seu desserviço
13
Gente, precisava ver
No dia da votação
Eleitores enganados
Com as promessas de Tião
Brigavam sem ter motivo
Face de um povo sofrido
Foto da corrupção.
14
Eu falei… Eu avisei
Quando ele se elegeu
“Cadê o pão que tava aqui?”
“O gato comeu.” “Comeu?”
“Cadê o gato?” “Fique pasma!”
Era um mito! Era um fantasma!
Ah, o povo enlouqueceu!
15
A mentira, minha gente
Anda entre caçadores
Entre homens e mulheres
Nas redes de pescadores
Mentem pra passar o tempo
Iludir o contratempo
Despistar seus dissabores.
16
Veja, o homem em questão
Um dia foi comprar peixe
Colocou a mão no bolso
“Ô não tenho, então deixe!”
O pescador teve pena
“Depois cê traz sem problema
Vá em paz, e não se avexe!”
17
Mas é brincadeira não
Tião estava mentindo
Tinha no bolso o dinheiro
Por dentro estava rindo
“Ladrão que rouba ladrão
Tem cem anos de perdão”
Eita, que Tião bandido!
18
Quando ele chegou em casa
Disse pra sua mulher
Trouxe mistura, Ana Fava
“Mentira! E o que é?!”
“É peixe! Foi de um amigo
Que um tempo estudou comigo
Na escola do migué.”
19
Teve um dia em que esse moço
Foi para a delegacia
Pois furtou um celular
Pertencente a Maria
Ficou tão aperreado
Mas a face de culpado
Escapou dessa agonia.
20
Ele arrumou um jeito
De dizer pro delegado
Que achou o celular
Na esquina abandonado
“Se soubesse de quem era,
Entregaria na vera.”
Inda foi recompensado!
21
Você pensa que Tião
Não posava com decência?
Frequentava a igreja
Com cara de inocência
Até lá ele aprontava
Com a cara deslavada
E pedia a Deus clemência.
22
Para o padre da cidade
Escreveu de próprio punho
Uma carta revelando
Mais um falso testemunho
Isso foi em fevereiro
E o padre fugiu ligeiro
Só voltou no mês de junho
23
Porque na comunidade
Quando aparece um fuxico
Enquanto não se descobre
Que é apenas mexerico
É tanto constrangimento
É plateia, é julgamento
Você diz: “Aqui não fico!”
24
Quando o padre regressou
Pra tirar Tião a terreiro
Celebrou uma bela missa
Convidou Tião primeiro
Na hora da homilia
Foi aquela baixaria
Indireta o tempo inteiro.
25
A mentira, minha gente
Tem um jeito de lavar
Arrepende-se do crime
E diz não mais praticar
Mas quando se nasce torto
Morre e não está disposto
A tentar se consertar
26
E o tal do mentiroso
Carrega dentro de si
Um passado pesaroso
E dívida pra se cumprir
Só que pior do que isso
É que ele não deixa disso
Desse hábito de mentir.
27
Geralmente, é na morte
Que vem arrependimento
Mas não pense que é o caso
De Tião Fava Nascimento
Pois na hora em que o Senhor
Julgou esse malfeitor
Ele disse: “Aqui não entro”.
28
Até na hora da morte
Ele se fez mentiroso
Pois usando aquela máscara
De homem velho orgulhoso
O infeliz das costas ocas
Botou a língua na boca
E foi pro inferno opinioso.