“EURECA”

Elciane de Lima Paulino

Nasceu num buraco, no Buraco de Recônditos, e morou num castelo de reboco, cujas brechas da parede ecoavam ilusões. Desenvolveu atrofia verbal, ouvindo que quem nasce em desvantagem não tem vez nem voz, desafina quando canta, mete-se onde não é chamado e fala como Aderbal (mesmo com monossílabos).

“Em boca fechada não entra mosquito” – assim foi alfabetizado e concluiu seus estudos. Entrando mudo e saindo calado.

No exercício da profissão, enfrentou paradoxos: “o silêncio é a melhor resposta”, mas não podia dar nota máxima ao silêncio dos outros; “o voto é secreto”, mas “o silêncio ideológico é ignorância política”; o deslize de um “ai”, e “sua língua é maior do que a boca”.

Foi aprendendo a falar, mas as palavras entravam num ouvido e saíam pelo outro. Entendeu que a palavra é assunto de poeta.

Prosseguiu seu destino, procurando respostas no silêncio, sonhando glaucômico. E numa dessas noites – “EURECA!” – nasceu a primeira hipótese de seu raciocínio imaturo: “Uma imagem vale mais que mil palavras”.

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