O DIA EM QUE O PAPAGAIO PERDEU A VOZ

Elciane de Lima Paulino

No reino da bicharada, resolveram fazer uma grande festa para comemorar o aniversário de Dona Coruja, a ave mais sábia, conhecedora de todas as virtudes e educadora da floresta. Se algum bicho fracassasse em seus atos, seria logo advertido e colocado de castigo. Justo. Dona Coruja era assim, muito justa! Mas também tinha defeitos, porque ninguém é perfeito. Tinha cisma com o papagaio, que sempre falava demais. E por isso, começou a incomodar-se com algumas coisas que ele tinha, por exemplo, suas “penas exuberantes”, seu “falar entojante” (ela se incomodava com as manias que ele tinha de rimar), seus “olhinhos de ressaca” (este apelido, ela pegou emprestado da Capitu). Nem por isso, ele ficou fora da lista de convidados.

Chegado o grande dia, todos trouxeram presentes. E para animar a festa, elefantes trouxeram as trombetas, os leões as letras das canções, os pássaros trouxeram a voz, as girafas enfeitaram as partes mais altas… e cada animal deixou sua contribuição. Era um dia muito feliz para Dona Coruja, pois além de ser o seu aniversário, ela tinha um plano de ridicularizar o papagaio, caso este se metesse a besta e resolvesse falar besteira.

O papagaio se atrasou. Enquanto a festa rolava, ele buscava um presente que combinasse com a Dona Coruja. Que fosse à altura dela, tão bonito como as estrelas do céu, mas de tanto escolher, ficou mais confuso ainda. Lembrou-se de que ela poderia gostar de uma caneta, porém, logo desistiu: uma caneta, ela não vai gostar! Lembrou-se também do dia em que Dona Coruja comentou “positivamente” sobre as cores das penas dele e pensou: “E se eu a presenteasse com uma caneta de pena de papagaio, aí sim! Ela iria adorar!?… Farei surpresa. Diferente do convencional, darei o presente no final!”

O papagaio chegou! – gritou o melhor amigo do homem.

Dona Coruja arregalou os olhos e seu coração acelerou. “É agora?” – pensou.

O papagaio muito animado pelo convite e cheio de surpresas, deixou a rima para o final. Desejou o Feliz Aniversário, deu beijinhos e coisa e tal. O presente escondido entre as penas. Ninguém suspeitou da proeza do animal.

Dona Coruja ignorou: – como ele ousa vir à minha festa sem me trazer um presente? Mal educado, muquirana, peste…! Esperarei seu primeiro pronunciamento para lhe cortar as asas. E assim o fez.

O papagaio iniciou com a voz que a natureza lhe deu: “Para a minha educadora/ de penas nobres como a noite/ que sucumbe as estrelas/ …” A Dona Coruja já estava ficando enjoada, e, sem deixar o papagaio prosseguir, pediu que partissem o bolo. A orquestra cantou logo os parabéns! E o papagaio triste, não sabia onde enfiar o bico. Queria sair dali, mas não tinha forças para isto. Ele não percebia que o presente que guardava na asa, o impedira de sair voando.

A festa acabou. Todos foram embora. Só o papagaio ficou. E para dispersar a tristeza, resolveu pensar… Uma coisa é certa: “nada melhor que um dia após o outro!” E o pássaro teve paz!

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